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Surf:
um olhar
Cinco países em um ano
O Fotógrafo gaúcho Pedro felizardo conta sua trajetória
em 365 dias por terras estrangeiras
Tudo começou em fevereiro de 2002, na estrada para Garopaba, numa
conversa com o amigo Guilerme Variani. Em dois meses, com 10 pessoas e
45 pranchas, estava embarcando numa Van que saiu de Porto Alegre e viajou
por todo o litoral chileno durante 40 dias em busca de ondas pouco exploradas.
Foram mais de 13 mil quilômetros percorridos e dezenas de cidades
visitadas. Destaque para Arica, na fronteira do Chile com o Perú,
cidade de clima extraordinário e ondas potentes; e Pichilemu, cerca
de 200 quilômetros ao sul da capital Santiago, terra onde o Oceano
Pacífico chega a temperaturas bem geladas. Uma das coisas mais
impressionantes que o Chile oferece é o Deserto de Atacama, o mais
árido do mundo. O atravessei por uma estrada que posicionava, de
um lado, a imensidão de terras desabitadas e, de outro, o azul
quase infinito do Oceano. O céu de uma das noites em que a Van
cruzava o deserto tinha tantas estrelas e pontos luminosos que quase não
se via o negro do universo escondido sob o brilho intenso de tanta luz.
Do Chile, voltei para Porto Alegre. Fiquei cerca de um mês. Vendi
meu carro e embarquei para Sidney. Principal cidade australiana, Sidney
é encantadora e aconchegante, apesar de seu tamanho. Uma metrópole
cosmopolita com quase 3 milhões de habitantes. Muitos destes, jovens
de todas as partes do mundo, vem para estudar e aprender um pouco mais
sobre a cultura de um país com quase a mesma extensão do
Brasil, mas com apenas 19 milhões de habitantes.
Foi lá que me fixei. Aluguei casa. Comprei carro. Estudei e trabalhei
com objetivo de reunir o dinheiro necessário para poder viajar.
Depois de 2 meses entre trabalho pesado na construção civil
e pilhas de louças lavadas num restaurante italiano, estava rumando
para Bali, Indonésia.
O turismo é o carro chefe da economia balinesa. Hotéis luxuosos,
restaurantes de cozinha internacional, milhares de turistas de todos os
continentes do planeta e ondas de sonho são características
dessa ilha quase 100 por cento habitada por hindus. Na Indonésia
conheci, de carro, as ilhas de Lombok e Sumbawa. Foi uma aventura indescritível,
ter de encontrar caminhos em terras nas quais a comunicação
se fazia somente por mímica. Entrei com o carro em ferry-boats
que ligam uma ilha à outra. Acompanhavam-me muçulmanos nada
amistosos e vendedores ambulantes com comidas nada instigantes. Depois
de aproximadamente 45 dias viajando, fotografando, surfando, e gastando
pouco pela Indonésia, voltei para Sydney. Saí exatamente
5 dias antes do atentado terrorista que matou mais de 200 pessoas e destruiu
a casa noturna Sari Club, local onde ia dançar e me divertir.
De volta a Austrália, fiquei em Narrabeen, praia ao norte da cidade
de Sydney. Durante os 3 meses seguintes, trabalhei numa fábrica
que produzia peças de metais e plásticos. Sentia-me pouco
como o Charlie Chaplin em "Tempos Modernos". Mas o que me movia
era o espírito de aventura e o salário que me possibilitaram
desembarcar, no início de dezembro, na ilha de Oahu.
O lugar mais famoso que o surf conhece é o lado norte dessa ilha,
território dos EUA. Além da tradição histórica
que o esporte tem por lá, a força e a beleza das ondas faz
com que milhares de surfistas a visitem durante a temporada de inverno
no hemisfério norte. Fiquei hospedado na pousada Green Forever,
do amigo Rômulo Fonseca, no Hawaii há cerca de 8 anos. É
em praias como Waimea, Pipeline, Sunset e Rocky Point que os fotógrafos
do mundo inteiro têm a chance quase única de poder encontrar,
ao mesmo tempo, ondas de qualidade e os melhores surfistas para clicar
a vontade. Ter fotografado num dia dentro d´água em Waimea,
com ondas que chegavam aos 6 metros de altura, foi das experiências
mais assustadoras, adrenalizantes e emocionantes que vivi.
Novamente era chegada a hora de retornar para Sydney. O dinheiro havia
acabado. Depois de mais 2 meses entre sacos de cimento e pratos para lavar,
fui para o lado oeste do país dos cangurus, para Margareth River.
Conhecida pela produção dos melhores vinhos da Austrália,
é uma cidade de 7 mil habitantes, muito charmosa e acolhedora.
A cultura do surf é muito forte por essas bandas, tanto que uma
brincadeira local diz: "dos 7 mil habitantes de Margareth River,
6 mil são surfistas". Cheguei na época de uma etapa
importante do Circuito Mundial de surf. Hospedei-me na casa de um salva
vidas, o Freddo, com os surfistas e amigos Rodrigo Dornelles, Teco Padaratz
e Marcelo Nunes. Foram 20 dias muito especiais. O ambiente simples e aconchegante
que Freddo e sua família proporcionaram, permitiu matar um pouco
da saudade de casa. De resto, conheci de perto uma das ondas mais fortes
e perigosas do planeta: The Box. De Maragareth voltei a Sydney por poucos
dias e embarquei para o México.
Cheguei em Puerto em maio de 2003. Fui recebido pelos amigos de Porto
Alegre, Lucas De Nardi e Bento Cuervo. Também por Coco Nogales,
surfista profissional mexicano mais conhecido. Alguns dias depois chegaram
os surfistas Rodrigo Dornelles, Werner Kinas e o catarinense Rafael Becker.
Puerto Escondido poderia equivaler ao Hawaii latino, se este existisse.
Ondas tubulares, surfistas profissionais, fotógrafos do mundo todo
e muitos locais para serem respeitados. O calor é absurdo. Obriga
a ficar em casa entre meio dia e duas da tarde. A comida e as diversas
pousadas à beira da praia são boas e baratas. O povo é
receptivo. Fazer novas amizades não é nada difícil.
No dia da partida, sentei-me na cama e, como num filme, vi toda essa viagem
projetada por preciosos minutos. Viajar é isso mesmo. Agente aprende,
cresce, conhece lugares, pessoas e culturas. Mas a hora de voltar não
é menos importante. É assim que resgatamos nossas raízes
e podemos nos dar conta de como mudamos. De como podemos nos transformar
em pessoas melhores e mais abertas para as coisas da vida e do mundo.
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